
Qual empresa pode reivindicar o título de marca mais antiga do mundo? A resposta depende do critério adotado: data de fundação, continuidade de atividade ou registro oficial de uma marca registrada. Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), o registro de marca mais antigo ainda em vigor é um depósito japonês do século XIX. Essa discrepância entre a realidade jurídica e a narrativa midiática merece ser examinada de perto.
Marca registrada, casa fundada, atividade contínua: três critérios, três resultados
O debate sobre a marca mais antiga baseia-se em uma confusão frequente entre três noções distintas. Uma marca registrada no sentido jurídico, uma casa fundada em uma data histórica e uma empresa em atividade contínua não designam a mesma coisa.
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| Critério | Reivindicante do título | Data chave | Particularidade |
|---|---|---|---|
| Mais antigo depósito de marca ainda em vigor | Depósito japonês (OMPI) | século XIX | Registro oficial mais antigo registrado pela OMPI |
| Mais antiga casa de joalheria em atividade | Mellerio, Paris | 1613 | Instalada na rue de la Paix, ainda sob a posse da família fundadora |
| Antiguidade reivindicada em relojoaria | Blancpain | 1735 | Frequentemente citada como a mais antiga relojoaria do mundo |
Esta tabela destaca um fato raramente sublinhado: a mais antiga marca registrada não é a mais antiga empresa. O direito das marcas como existe hoje é uma invenção relativamente recente, posterior à revolução industrial. As casas fundadas antes dessa época funcionavam sob o nome de um mestre artesão, não sob uma marca comercial no sentido moderno.
Para descobrir a marca mais antiga do mundo sob todos os seus ângulos, é necessário cruzar essas três grades de leitura em vez de confiar apenas na narrativa de marketing.
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Mellerio e a joalheria parisiense: uma continuidade familiar desde 1613

Mellerio é considerada a mais antiga casa de joalheria do mundo ainda em atividade. Fundada em 1613, a casa está instalada na rue de la Paix em Paris. Ela atravessou mais de quatro séculos sem interrupção de atividade e sem mudança de proprietário familiar.
Entre 2020 e 2023, Mellerio obteve uma nova visibilidade editorial na cena parisiense. Artigos dedicados à joalheria da capital lembraram essa anterioridade excepcional. Em contrapartida, essa informação permanece quase ausente dos conteúdos voltados para relojoaria ou grandes marcas de consumo, que preferem destacar Coca-Cola, Heineken ou Rolex.
Esse desequilíbrio editorial se explica pelo tamanho do mercado. As marcas de grande consumo geram mais consultas do que as casas artesanais, o que orienta mecanicamente os conteúdos para as primeiras. Mellerio, apesar de seus quatro séculos de existência, continua sendo uma casa confidencial em comparação com os gigantes do luxo.
Relojoaria e antiguidade: Blancpain, Breguet, Longines
A relojoaria concentra um número incomum de marcas que reivindicam uma antiguidade excepcional. Blancpain, com uma data de fundação em 1735, é frequentemente citada entre os mais antigos relojoeiros.
- Breguet é uma casa relojoeira cujas invenções mecânicas permanecem referências técnicas hoje, notavelmente o tourbillon e os relógios com complicações
- Longines é uma casa suíça presente há muito tempo no mercado global, reconhecida por seus cronógrafos e seu posicionamento no segmento de luxo acessível
A dificuldade com a relojoaria reside na distinção entre ateliê artesanal e marca comercial. No século XVIII, um relojoeiro assinava suas peças com seu nome. A transformação em marca registrada, protegida juridicamente, ocorreu muito mais tarde. O ano considerado como “fundação” é frequentemente aquele do primeiro ateliê, não o do depósito de marca.

Por que a narrativa midiática favorece as marcas de consumo
Os conteúdos online sobre “a mais antiga marca do mundo” citam massivamente Coca-Cola, Heineken ou Chanel. Esses nomes dominam os resultados de pesquisa por uma razão estrutural: sua notoriedade gera tráfego, e os redatores web privilegiam os assuntos com alto volume de consultas.
As marcas artesanais centenárias permanecem invisíveis no marketing de conteúdo. Mellerio, apesar de seus 1613, não aparece em nenhum ranking “top marcas mais antigas” destinado ao grande público. A narrativa midiática associa a antiguidade ao poder comercial, não à continuidade artesanal.
Por outro lado, a OMPI adota um critério puramente jurídico. Seu registro não leva em conta a notoriedade nem o faturamento. O mais antigo depósito de marca ainda ativo é japonês, um fato ignorado pela quase totalidade dos artigos de divulgação sobre o assunto.
Essa divergência entre a narrativa popular e a realidade jurídica produz um ângulo morto editorial. Os leitores que buscam a história da mais antiga marca do mundo encontram uma narrativa centrada em gigantes do luxo ou da grande distribuição. O critério adotado para definir “a mais antiga” muda radicalmente a resposta, e essa nuance faz toda a diferença entre uma anedota de marketing e um fato histórico documentado.